Inerrância(Pr. Ricardo Nogarotto)
INERRÂNCIA(Pr. Ricardo Nogarotto)
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Será que a Bíblia, a palavra inspirada de Deus, pode conter erros, ou ela é, como alguns afirmam, absolutamente perfeita em cada detalhe em tudo que ela aborda? Pode parecer uma pergunta simples à primeira vista, mas esta é uma discussão que não é de hoje, é um debate extremamente antigo, tem séculos de história, e tem um impacto direto de como entendemos a autoridade e confiabilidade das Escrituras Sagradas. Algumas pessoas passam a considerar a crença na inerrância, ou seja, a ausência total de erros na Bíblia como sendo um divisor da fé cristã. Eles dizem: ”Ou você aceita a Bíblia como perfeitamente inerrante, ou você não consegue sustentar uma visão elevada a respeito dela.” Mas será que é mesmo assim? Neste artigo, vou apresentar exemplos de possíveis erros que encontramos na Bíblia. Se compararmos as histórias da negação de Pedro nos Evangelhos, notamos pequenas diferenças na história do galo que cantou. Pedro é avisado por Jesus que ele não negaria antes que o galo cantasse. O registro da Bíblia é de apenas um único canto nos Evangelhos de Mateus, Lucas e João(Mt.26:69-75; Lc.22:34, 57-61; Jo.18:17, 25, 27). Mas em Marcos, Jesus fala que Pedro negaria antes de que o galo cante duas vezes. De fato, o Evangelho de Marcos 14:68-72, ao invés de registrar apenas um canto, registra dois. Será que a Bíblia tem um erro neste detalhe? E se eu te dizer que tem um texto no Antigo Testamento que parece haver uma imprecisão matemática. Em I Reis 7:23, ao descrever o mar de fundição do Templo, Salomão diz que o Templo tinha “dez côvados” de diâmetro e “trinta côvados” de circunferência. Para quem entende de matemática sabe que a relação entre circunferência de diâmetro de um círculo é o número pi, que é aproximadamente 3,14. Só que se dividirmos trinta por dez, o resultado é três. Então parece que a Bíblia arredondou o valor de pi para um número inteiro.
Imaginem só esta outra situação: O apóstolo Paulo está escrevendo aos coríntios, e ele menciona um evento no Antigo Testamento, uma praga que matou milhares de israelitas no deserto. Em I Coríntios 10:8, ele afirma que “vinte e três mil” pessoas caíram num único dia. Mas, em Números 25:9, o mesmo evento registra que “vinte e quatro mil” pessoas morreram daquela praga. São mil pessoas de diferença. Como pode a Bíblia ter duas contagens tão diferentes para o mesmo acontecimento? Será que um dos textos está errado, e isso abala nossa confiabilidade na Palavra de Deus?
Quem não se lembra, por exemplo, da parábola semente de mostarda(Mt.13:31-32)? Jesus descreve a semente de mostarda como sendo “a menor de todas as sementes”, que ao crescer se torna uma grande árvore. Esta é uma imagem linda de fé e crescimento, mas, no entanto, contudo e todavia, se formos buscar em livros de botânica hoje, descobriremos que técnicamente existem sementes menores do que a semente de mostarda. Então, se Jesus disse que ela era a menor, e a ciência mostra que ela não é, será que temos um erro factual nas palavras do próprio Jesus, ou pior, nas palavras da própria Bíblia? Aqui vão algumas questões que podem nos fazer coçar a cabeça quando olhamos a Bíblia, por exemplo, com os olhos do séc. XXI. Levítico 11:6, dentro das leis dietéticas dadas a Israel, o texto afirma que a lebre, um animal impuro porque “rumina mas não tem casco fendido.” Para quem entende de biologia sabe que lebres não são animais que ruminam como as vacas ou as ovelhas. Elas não possuem um estômago com quatro compartimentos para digerir o alimento desta forma. Então, a Bíblia está errada em dizer que a lebre rumina. Um texto divinamente inspirado, como pode conter uma afirmação cuja ciência moderna contradiz? E na crucificação de Jesus, por exemplo: Pilatos mandou pregar, em cima da cabeça de Jesus na cruz, uma placa com uma inscrição. A Bíblia nos conta sobre essa inscrição, mas se compararmos os relatos nos quatro Evangelhos, vai perceber algo muito curioso: Mateus 27:37 diz: “ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS”. Em Marcos 15:26, diz apenas: “O REI DOS JUDEUS”. Em Lucas 23:38 diz apenas: “ESTE É O REI DOS JUDEUS”. E em João 19:19, diz: “JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS.” Como pode haver quatro versões diferentes para a mesma inscrição? Será que um Evangelho está certo, e os outros Evangelhos estão errados? Isto levanta uma pergunta: A Bíblia é infalível em seus detalhes, ou essas diferenças são um sinal de imprecisão que pode abalar nossa confiança na Bíblia? Vamos analisar os argumentos que surgiram ao longo da história, e mais importante, descobrir se é possível ter uma visão elevada das Escrituras. Ou seja, considerá-la confiável, considerar a Palavra de Deus e mesmo reconhecendo que existem imperfeições e variações nos detalhes. Para começar esta jornada precisamos voltar um pouco no tempo, entender as raízes da doutrina da Inerrância. Lá pelos meados do séc. XVII, que era conhecido como Idade da Fé, começou a dar lugar a uma nova era: a Idade da Razão. A ciência, a filosofia, o pensamento crítico, tudo isto começou a ganhar muita força. Esta nova mentalidade começou a influenciar a forma como as pessoas liam e interpretavam a Bíblia. Foi neste período que surgiu o que nós chamamos de “Alta Crítica Alemã”. Pense nisto: temos um movimento intelectual, especialmente na Alemanha, que aplica os métodos racionais, históricos, no estudo da Bíblia. Eles começam a questionar a autoria, a datação, e até a historicidade de alguns relatos. Esta nova abordagem representou um grande desafio. Então, para a ortodoxia protestante da época, que sempre considerou a Bíblia inspirada e com plena autoridade, era como se o chão estivesse se movendo. As idéias liberais, como eram chamadas, começaram a se espalhar, inclusive na América, e a confiança na Bíblia parecia estar sendo erodida. Diante deste cenário, alguns teólogos americanos, buscaram uma forma de conter essa maré. Eles sentiram a necessidade de definir, de forma ainda mais precisa, o que os próprios reformadores ainda não haviam feito. Eles queriam definir a natureza e inspiração da autoridade das Escrituras Sagradas. E é aqui que entramos num ponto chave, a influência da Teologia de Princeton. Eles foram figuras muito importantes neste período. Eles refinaram, e de certa forma, reinterpretaram a doutrina da Inerrância. Num famoso artigo chamado “Inspiração” de 1881, eles defenderam que “a Bíblia é plena, total, e verbalmente inspirada". Ou seja, cada palavra, em certo sentido, vem do próprio Deus. Por isto, ela seria inerrante em todos os assuntos que toca, sem nenhum tipo de erro no texto original. É importante a gente entender que, este trabalho de alguns teólogos(Charles Hodge e B.B. Warfield), eles foram muito fundamentais nesta reação contra a onda do ceticismo e do liberalismo. Foi uma tentativa sincera de proteger a Palavra de Deus. Acontece que esta reação, às vezes, pode ter produzido o que podemos chamar, super crença, ou credo. Na ânsia de proteger eles acabam indo além da própria Escritura. E além daquilo que a própria Bíblia reivindica a respeito de si mesmo. E é esta distinção que vai nos ajudar a entender melhor essa complexa discussão. A gente precisa se aprofundar nos argumentos principais que os defensores da inerrância costumam usar, e vamos também ver as análises, ponderações que podemos fazer em relação a eles:
1 - O primeiro grande argumento, e talvez o mais fundamental para muitos, é o ARGUMENTO ESCRITURÍSTICO. Este argumento defende, ensina, que a própria Bíblia ensina a sua inerrância. Isto significa que, segundo esta visão, a Bíblia afirma explicitamente não conter erros. Pessoas que são defensoras dessa visão afirmam que Jesus e o apóstolo Paulo, por exemplo, ensinaram a inerrância. Eles apontam para as passagens que falam da confiabilidade de Deus e do Seu caráter, e eles associam essas passagens às Escrituras. O exemplo clássico, que é usado aqui é Mateus 5:17, 18. No texto Jesus fala que “nem um til, nem um jota passará da lei até que tudo se cumpra.” Os inerrântistas interpretam isso como sendo uma prova de que a Bíblia é perfeita até nos menores detalhes. Eles também citam João 10:33-36, onde Jesus diz que “a Escritura não pode ser quebrada.” Para eles, só é possível este texto se as Escrituras forem absolutamente verdadeiras em cada particularidade.
Existem também alguns argumentos baseados na forma de palavras, ou uma única palavra. “Semente” no singular, em Gálatas 3:15, 16, Paulo usa para desenvolver um ponto teológico. Se a Bíblia não fosse inerrante esses argumentos perderiam peso segundo eles. Mas é aqui que precisamos fazer uma análise mais crítica: Será que a Bíblia realmente reivindica para si essa inerrância ilimitada? É importante lembrar que a inerrância é um conceito escriturístico de fato ou se é uma inferência feita por pessoas piedosas? Os textos usados para sustentar a inerrância, na verdade, comprovam a confiabilidade e a inspiração da Bíblia, mas não é uma reivindicação de inerrância ilimitada como uma doutrina explícita. Lembrem-se que um argumento baseado em uma única palavra, ou na forma dela, nem sempre se aplica de forma universal. Ironicamente, os próprios Evangelhos, com suas variações e diferentes ênfases nos relatos, podem ser um obstáculo para a inerrância tão detalhada. A Bíblia não ensina inerrância, nem a inerrância parece estar pressuposta, implícita, pelo que ela faz. Pelo menos em termos estabelecidos. O que isto significa? Quer dizer que a inerrância, na verdade, não é algo formalmente declarado pelas Escrituras. Ela é sim, uma inferência que fazemos a partir do conceito bíblico, de inspiração e perfeição de Deus. Então pensa comigo, a lógica é se tudo que Deus faz é perfeito, e se Ele inspirou as Escrituras, então as Escrituras devem ser perfeitas. Parece uma conclusão lógica a partir de premissas bem construídas, não é? Mas veja, esta é uma conclusão nossa. Não é uma declaração da Bíblia expressa de si mesma. Um ponto que precisa ser revisto é a nossa comparação com a não pecaminosidade de Cristo. Alguns defensores da inerrância fazem uma analogia entre a Bíblia e Jesus: “assim como Cristo foi verdadeiramente humano, mas sem pecado; a Bíblia seria humana em suas formas, mas sem erro.” No entanto, essa é uma analogia remota. Podemos crer plenamente na não pecaminosidade de Cristo, e ainda assim aceitar que as Escrituras possam ter algumas imprecisões em detalhes periféricos, sem que isto abale a fé fundamental em Cristo.
E o que podemos dizer da idéia de que a inerrância é exigida pela inspiração. Alguns argumentam que as duas doutrinas: inspiração e inerrância, ficam de pé ou caem juntas, separadas, seria um erro e falta de sentido. Essa visão faria mais sentido talvez se acreditássemos numa inspiração por ditado mecânico, onde os escritores bíblicos apenas copiavam passivamente o que Deus ditava. Mas a própria Bíblia não reivindica este modelo de inspiração. Nem os inerrântistas de hoje sustentam essa visão de um ditado mecânico. E aqui está um ponto crucial, a inerrância por si só não garante inspiração Divina. Pense num livro de matemática, por exemplo. Ele pode não ter nenhum erro, ser inerrante, mas isto não o torna divinamente inspirado. A inerrância apenas diria que a Bíblia não pode ser acusada de erros, mas para provar que ela é Divinamente inspirada precisaríamos de outras categorias de evidências. Então, a conclusão aqui, é que a inerrância não é indispensável para termos uma visão elevada das Escrituras, pois ela não implica automaticamente na crença da inspiração.
2 - Além do argumento escriturístico, os inerrântistas também usam o ARGUMENTO HISTÓRICO. Eles afirmam que a inerrância total tem sido a posição normativa da Igreja ao longo de quase 2000 anos de história. Eles dizem que quem nega a inerrância nos detalhes, está em desacordo com a visão plena da Bíblia de que a Igreja sempre observou a idéia de que a Bíblia é inerrante. Mas quero desafiar esta afirmação: uma pesquisa histórica de inerrância pode levar a conclusões bem diferentes. Evidências sugerem que a moderna teologia herdou um problema da inerrância bíblica do escolástico sismo-ortodoxo do séc. XVII. Ou seja, esta ênfase na inerrância total, especialmente nos detalhes científicos, históricos, é mais um desenvolvimento recente do que uma crença contínua desde os primórdios da Igreja. É historicamente irresponsável alegar que por 2000 anos os cristãos creram que a autoridade da Bíblia implicava em um conceito moderno de inerrância em detalhes científicos dos históricos. A Igreja, ao longo dos séculos, usou termos, como: “autoridade”, “suficiência”, “infalibilidade”, para descrever a Bíblia, mas, igualar esses termos à inerrância é uma inferência dedutiva dos inerrântitas. E tem mais, um conceito moderno de inerrância, com precisão científica, era completamente desconhecido antes do surgimento da ciência moderna. Isto seria um anacronismo. Quando os pais da Igreja diziam que “a Bíblia não tinha erros", provavelmente, eles não queriam dizer o mesmo que entendemos de erro hoje, com nossos padrões científicos-históricos. Não podemos ler as preocupações de Calvino com as nossas próprias. Em resumo, embora a intenção seja proteger a Bíblia, a forma como a doutrina da inerrância se desenvolveu, e é defendida hoje, levanta questionamentos históricos e bíblicos.
3 - O terceiro argumento dos inerrântistas é o ARGUMENTO EPISTEMOLÓGICO. Epistemologia vem do grego: “episteme”, que significa: conhecimento; “logis”é: estudo. É a área do conhecimento que estuda a natureza, a origem e os limites do conhecimento. No nosso contexto, esse argumento se resume na ideia de que “se a Bíblia não for perfeitamente inerrante então os cristãos não teriam um fundamento sólido sobre o qual basear as suas crenças.”Se a Palavra de Deus “pudesse ter erros, como poderíamos confiar em qualquer coisa que ela diz?” Eles dizem: “Se a Bíblia não está completamente isenta de erro então deve haver algum erro nela.” É uma visão do tipo, ou tudo ou nada. Só que temos uma ironia aqui, os próprios crentes da inerrância na prática lêem e confiam em suas próprias cópias da Bíblia que tecnicamente não são inerrantes. Afinal, o texto original, o manuscrito original, escrito diretamente pelo autor bíblico não existe mais. O que temos hoje são cópias de cópias feitas ao longo dos séculos. E por mais cuidadosos que fossem os copistas, pequenas variações e erros de transcrição naturalmente ocorriam. Se a ausência de erros fosse tão epistemologicamente crucial, por que que Deus não garantiu a preservação de um texto sem erros ao longo da história? E mais, o próprio Jesus, Paulo, e os escritores do Novo Testamento, usavam os manuscritos do Antigo Testamento que eram para os nossos padrões não inerrantes em alguns detalhes. E eles os usavam como confiáveis, autoritativos. Isto significa que para eles essas pequenas variações não interferiram na autoridade espiritual da Palavra. Os cristãos não se apegam à fé cristã por causa da inerrância das Escrituras, mas por causa da sua experiência com Cristo, o Espírito Santo e o conteúdo espiritual das Escrituras Sagradas que tão efetivamente tem falado em nossos corações. Nossa fé não está ancorada numa perfeição mecânica do texto, mas na experiência vivida com o Autor daquele texto. A soberania de Deus, a honra de Jesus Cristo, a confiabilidade da doutrina bíblica, não depende de uma inerrância absoluta em todos os detalhes. A Bíblia pode ter algumas imprecisões menores e ainda assim ser perfeitamente confiável para nos guiar em nossa jornada de fé. Portanto, o argumento baseado na epistemologia por si só é bastante questionável.
4 - Existe um quarto argumento que é o argumento dominó, a Teoria do Escorregador. Este argumento é mais ou menos assim: se você nega a inerrância em qualquer ponto, por menor que seja, você entra em um escorregador que inevitavelmente leva à negação de outras doutrinas essenciais do cristianismo, culminando, talvez, no liberalismo teológico, até na apostasia. Pense na imagem dos dominós enfileirados, se o primeiro dominó, a inerrância, cai, ele derruba todos os outros. A questão aqui é, será que a rejeição à inerrância perfeita nos detalhes realmente leva inevitavelmente à heresia? Igualar a inerrância nas minuciosas questões ao conceito de inspiração é uma inversão equivocada e longe da verdade. A Inspiração, o fôlego de Deus na Palavra é um conceito muito amplo e profundo. Calma, que essa visão não nos classifica como hereges. Isto não é uma coisa só da nossa cabeça. Karl Barth(1886-1968), um importantíssimo teólogo, tinha uma visão da estrutura que não se alinhava com a inerrância estrita, chegando a admitir a capacidade de erro na Bíblia, até mesmo em seu conteúdo religioso e teológico. No entanto, Karl Barth é conhecido e reconhecido como um dos grandes teólogos do século XX. Sua obra não o levou a abandonar a ortodoxia bíblica em muitos pontos cruciais. Isto mostra, que nem sempre a queda do dominó é tão inevitável quanto se argumenta. Em conclusão, negar a possibilidade de uma visão elevada das Escrituras para aqueles que não aceitam inerrantismo radical apenas com base nesses argumentos epistemológicos ou do dominó não é uma objeção séria. Não podemos basear a autoridade e a verdade da Bíblia na inerrância de cada detalhe porque ao fazer isto corremos o risco de tentar prová-la com base unicamente na racionalidade científica e não em seu poder transformador. Então, defender a inerrância como se fosse a única forma de ter uma visão elevada das Escrituras, é, no final das contas, confundir a interpretação pessoal de alguns com a verdade. O abandono da inerrância não força alguém a abraçar o liberalismo, a apostasia.
Agora que já analisamos a história da inerrância, analisamos os argumentos escriturísticos, históricos, epistemológicos e o argumento do dominó, agora vamos para um dos pontos mais importantes, talvez, mais intrigantes da nossa discussão: os fenômenos da Bíblia. O que são esses fenômenos? Basicamente são as observações que fazemos ao lermos o texto bíblico. São variações, relatos paralelos, como nos Evangelhos, e as diferentes formas de citar o Antigo Testamento no Novo Testamento. Também a maneira como a Bíblia usa a linguagem, o conhecimento da época que ela foi escrita. Entenda: nenhuma visão das Escrituras pode ser indefinidamente sustentada se correr contra fatos. Em outras palavras, não adianta ter uma teoria sobre como Deus deveria ter inspirado a Bíblia, se essa teoria não se encaixa com que a Bíblia realmente mostra sobre si mesma. Precisamos aprender como Deus de fato a inspirou. E aqui reside o grande desafio para a inerrância literal em cada detalhe. Na tentativa de proteger a Bíblia, os defensores da inerrância acabam criando um modelo irreal de inspiração. Eles estabelecem uma série de testes tão rigorosos que se torna praticamente impossível que qualquer suposto erro seja realmente qualificado como erro. Eles tendem a confundir a palavra erro com precisão técnica. Por exemplo: Um texto de ciência busca uma precisão milimétrica, exata, mas a Bíblia não é um livro científico neste sentido. Os inerrântistas, eles confundem o erro, no sentido de precisão técnica, com a noção bíblica de erro, como engano intencional. E por exigirem da Bíblia uma estrita precisão científica, acabam usando um padrão extra bíblico para ferir a verdade da Palavra. Exemplos que ilustram este fenômeno: Lembra da questão do galo cantando no momento da traição de Pedro? Os Evangelhos não são reportagens jornalísticas, são testemunhos teológicos, escritos por pessoas com suas próprias perspectivas e ênfases. Essa variação nos detalhes não compromete em nada a verdade central da história. A previsão de Jesus da negação de Pedro, o papel do canto do galo como um sinal, só nos mostra que a Bíblia é revelada por autores humanos, inspirados por Deus, que esta diversidade de relatos não diminui à sua autoridade, mas nos lembra que o seu propósito principal é nos guiar à salvação e não à precisão minuciosa de cada evento histórico-científico. Lembra da questão do número pi, que foi arredondado para três? Embora matematicamente seja impreciso arredondar o número de pi para três, não é um erro da Bíblia no sentido espiritual ou moral. Esse argumento do pi é um excelente exemplo de que a Bíblia não é um manual de ciência ou tratado de engenharia modernos. Os escritores bíblicos usaram a linguagem, os padrões de precisão, da sua própria época, onde medidas eram arredondadas, e práticas eram comuns para as descrições. O propósito de I Reis 7:23 não era ensinar geometria avançada, mas descrever a grandeza do Templo de Salomão como símbolo da presença de Deus. Essa diferença não compromete a autoridade ou a verdade da Palavra de Deus em seu propósito salvífico que é de nos guiar em um relacionamento com Deus. Lembra da imprecisão do apóstolo Paulo quanto aos números de israelitas que morreram? Ele falou “vinte e três mil” mas, eram “vinte e quatro mil”. Essa divergência numérica, embora intrigante, é mais uma imprecisão de registro do que um erro que compromete a verdade espiritual da Bíblia. Lembrem-se que os autores bíblicos não eram historiadores modernos, com acesso a estatísticas exatas, ou revisores de dados precisos. Paulo, ao citar um evento, pode ter focado em um número de mortos num período específico, ou talvez, o pico em um único dia. Ou pode ter arredondado mesmo a contagem com seu propósito teológico. O ponto central de Paulo não era a cifra exata, mas o perigo da idolatria e da imoralidade. A mensagem crucial é que a consequência do pecado e a infidelidade a Deus gera um juízo terrível. E essa mensagem permanece poderosa, inalterada e, essa mensagem é mostrada mesmo em pequenas variações numéricas. Lembra, por exemplo, de Jesus falando da semente de mostarda, que era “a menor” das sementes? Esta aparente imprecisão não é um erro mas uma demonstração de como Jesus se comunicava de forma eficaz com seu público. Na cultura da época, a semente de mostarda, era particularmente conhecida como menor grão, que podia ser plantado, e que produzia uma planta relativamente grande. O objetivo de Jesus não era dar uma aula de botânica, ou apresentar uma classificação milimétrica, científica, exata, da semente. Ele estava usando uma analogia, familiar e compreensível, para ensinar uma verdade espiritual profunda: como o reino dos céus e a fé, mesmo começando pequenos, podem crescer de forma extraordinária. A Bíblia, ela é infalível em sua mensagem de salvação, em seus ensinamentos espirituais, comunicando verdades eternas de forma culturalmente irrelevantes, não se propondo a ser um manual científico. Sobre a afirmação de Levítico, por exemplo, quanto à lebre ruminar. Vista sobre a ótica da biologia moderna, é óbvio que não se encaixa na descrição técnica do que seria ruminação. No entanto, não é um erro espiritual ou moral. Escritores bíblicos descreviam a natureza com base na observação empírica, na linguagem da sua época. A lebre tem o hábito de praticar o que a gente chama de cecotrofia, que é a falsa ruminação. Diferente dos ruminantes que trazem o alimento de volta do estômago(regurgitação), a lebre prática a cecotrofia. Elas produzem um tipo especial de fezes(cecotrofos) e são mastigadas novamente. Para a observação antiga poderia assemelhar-se a ruminação, pois o animal, a lebre, estava constantemente ruminando. O propósito, ou mexer na boca, no caso, o propósito das leis em Levítico, não era de dar uma aula de zoologia precisa, por exemplo, mas sim estabelecer diretrizes de pureza e santidade para o povo de Deus. Sobre as inscrições, as placas, por cima, ali, na cabeça de Jesus na cruz. Os evangelistas, eles não estavam redigindo um relatório forense, uma ata de cartório. Eles estavam escrevendo testemunho teológico. Cada um deles, guiados pelo Espírito Santo, selecionaram e parafrasearam a inscrição de Pilatos de uma forma que melhor servisse ao seu propósito literário e teológico, enfatizando aspectos específicos da verdade. O fato fundamental sobre a questão das placas, das inscrições, é que tais inscrições são consistentes em todos os relatos. Em todas elas afirmavam a Jesus como: O REI DOS JUDEUS. Ironicamente, confirmavam Sua identidade messiânica, mesmo em meio à Sua humilhação. A precisão essencial da mensagem é mantida. Isto demonstra que a Bíblia é digna de confiança em suas verdades centrais mesmo quando os detalhes superficiais podem apresentar variações que enriquecem a narrativa em vez de invalidá-la. São detalhes, que à luz do nosso conhecimento atual, podem parecer imprecisões, mas a Bíblia fala na linguagem das pessoas, usando as referências, compreensão da cultura da época. Deus não transformou as pessoas em robôs, ou removeu elas do seu ambiente cultural. Se Deus escolheu falar através de homens que viveram contextos históricos, sociais, culturais, linguísticos muito específicos, então Ele determinou que por esse método, à Sua Palavra, que no sentido moral e espiritual é inerrante, seria transmitida para nós. A Bíblia, um livro semítico antigo, contém erros, mas erros numa esfera periférica. Na sua esfera central, que é a transmissão da salvação, a Bíblia é inerrante, infalível. Que este tema te ajudou a ver com outros olhos, a ter uma visão elevada das Escrituras, pois podemos confiar nela plenamente. Que você possa ter sido muito abençoado com essa reflexão. A Bíblia é autoritativa e confiável, por meio dela, Deus fala e opera. Como reagiremos à Palavra de Deus?
Links:
https://www.adventist.org/pt-br/em-que-os-adventistas-do-setimo-dia-acreditam/
ttps://centrowhite.org.br/downloads/audiobooks/o-desejado-de-todas-as-nacoes/
https://consultoriadoutrinaria.blogspot.com/
http://consultadapalavra.blogspot.com/
https://youtu.be/l8VyLqdq1U8?si=97RSkL5aIA12swSb
https://youtu.be/d8zvyOi-2jI? si=bXql_Z_z1Hai_tlD
https://www.youtube.com/watch?v=AoLfdfB36ww
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